Conflito geopolítico volta ao radar do mercado de fertilizantes
Nas últimas semanas, diferentes veículos de economia e agronegócio passaram a destacar os efeitos do conflito no Oriente Médio sobre o mercado de fertilizantes. Reportagens publicadas por InfoMoney, CNN Brasil, Forbes Brasil e Globo Rural apontam que a escalada do conflito envolvendo Irã e Israel já começa a provocar impactos no mercado global de insumos agrícolas.
Entre os primeiros sinais observados está a reação nos preços dos fertilizantes nitrogenados, especialmente da Ureia.
Segundo reportagem do InfoMoney, com base em dados citados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o preço da ureia no Brasil já registrou aumento de cerca de 33% desde o início do conflito, considerando produto e frete.
Energia e fertilizantes: a conexão com o gás natural
O movimento está diretamente ligado ao aumento do custo do gás natural, principal matéria-prima utilizada na produção de fertilizantes nitrogenados.
A escalada do conflito também pressiona o mercado de energia. O gás natural, base da produção de nitrogenados, tem apresentado forte volatilidade nos mercados internacionais. Em alguns países da União Europeia, os preços do gás chegaram a registrar altas relevantes nas primeiras reações do mercado ao conflito, elevando os custos de produção da indústria de fertilizantes.
Essa relação direta entre energia e fertilizantes explica por que tensões geopolíticas costumam provocar movimentos rápidos de preço no mercado de nutrientes agrícolas.
Dependência do Brasil de fertilizantes importados
O impacto ganha ainda mais relevância quando se observa a dependência brasileira de fertilizantes importados.
Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) mostram que 85,7% dos fertilizantes utilizados na agricultura nacional vêm do exterior.
Em 2025, o Brasil importou 43,32 milhões de toneladas, enquanto a produção doméstica foi de 7,22 milhões de toneladas.
Entre os produtos mais importados estão fertilizantes nitrogenados, fosfatados, potássicos e formulações NPK.
O peso do Oriente Médio na oferta global de nitrogenados
No caso específico dos nitrogenados, parte relevante da oferta global está associada ao Oriente Médio.
Estudo do Insper Agro Global, com base em dados do Trade Data Monitor, indica que 15,8% dos fertilizantes nitrogenados importados pelo Brasil em 2025 tiveram origem na região.
Além disso, cerca de 35% da ureia consumida no país provém de países desse bloco, o que amplia a sensibilidade do mercado brasileiro a eventos geopolíticos.
Impactos já aparecem em polos produtores como o Egito
O impacto também aparece em importantes polos produtores. No Egito, um dos grandes exportadores de ureia, analistas observaram movimentos recentes de alta no preço do fertilizante no mercado internacional.
Esse movimento reflete a preocupação do setor com possíveis interrupções no fornecimento de gás natural e nas rotas comerciais da região.
Como os preços de fertilizantes são fortemente interligados globalmente, oscilações em polos produtores tendem a se espalhar rapidamente por outros mercados.
Estoques e compras antecipadas reduzem impacto imediato no campo
Apesar da reação imediata nos preços internacionais, os impactos diretos no campo ainda tendem a ser limitados no curto prazo.
Isso ocorre porque grande parte do fertilizante nitrogenado utilizado nas lavouras já foi adquirida previamente e está em estoque para atender as safras atuais, período que concentra a maior parte do consumo desse insumo.
Além disso, parte dos produtores brasileiros já antecipou compras para a próxima safra.
Tradicionalmente, o prazo para consolidar essas aquisições se estende até junho, o que ainda permite ao mercado observar a evolução do conflito e avaliar se os preços tendem a se acomodar.
Demanda global também pressiona o mercado
No cenário internacional, a demanda por nitrogenados também contribui para pressionar o mercado.
Países como Estados Unidos e Índia, além de algumas nações europeias, estão atualmente em período de aquisição de fertilizantes para atender o plantio de milho.
Esse movimento tende a aumentar a disputa global por produto.
Nos Estados Unidos, inclusive, já havia expectativa de redução da área plantada com milho por outros fatores econômicos. Com fertilizantes mais caros, essa tendência pode se intensificar.
Fosfatados também podem sentir efeitos da instabilidade
Embora o foco inicial esteja nos nitrogenados, outros nutrientes também podem sentir os efeitos do cenário geopolítico.
Fertilizantes fosfatados, como o fosfato diamônico (DAP), também registram oscilações de preço em alguns mercados.
A região do Oriente Médio possui participação relevante no comércio internacional desses insumos, o que torna o mercado sensível a eventuais interrupções logísticas ou produtivas.
Impactos podem chegar à cadeia de alimentos
Do ponto de vista da cadeia produtiva, os efeitos tendem a aparecer de forma gradual.
Cultivos de ciclo mais curto, como hortaliças, legumes e parte do hortifruti, podem sentir impactos primeiro.
Na sequência, o aumento de custos pode alcançar grãos como milho, soja e trigo.
Caso o conflito se prolongue, os reflexos podem chegar também à proteína animal, já que milho e soja são base da ração utilizada na produção de carnes, ovos e leite.
Geopolítica volta a influenciar o mercado de fertilizantes
Do ponto de vista de mercado, o episódio reforça uma característica estrutural do setor de fertilizantes: sua forte conexão com energia, logística internacional e geopolítica.
Relatórios e análises de instituições como a Bloomberg indicam que conflitos em regiões produtoras tendem a ampliar a volatilidade em insumos agrícolas estratégicos, especialmente aqueles diretamente ligados ao gás natural.
Para países importadores como o Brasil, isso significa que movimentos geopolíticos podem rapidamente se traduzir em pressão de custos ao longo de toda a cadeia agrícola.
Mais do que uma oscilação pontual de preços, o cenário atual reforça a importância de estratégias de diversificação de fornecedores e fortalecimento da produção nacional de fertilizantes.
Confira o contéudo no qual analisamos de forma direta os efeitos do conflito no Oriente Médio sobre o mercado de fertilizantes e o que pode mudar nos próximos meses.





